II. Regulamento
texto de cena
QUADRO II. REGULAMENTO
“Das obrigações dos operários”
Na generalidade, os operários referem, nas entrevistas, o rigor e a disciplina que regulavam o funcionamento da fábrica. Recordam com recorrência os mais diversos castigos: “Tínhamos de andar direitinhos… porque senão… havia muita disciplina nesta fábrica”[1], desabafa a Francisca. Para não perder o prémio, a D. Alice conta que um dia chegou à fábrica às 5 horas da manhã, quando na verdade, o horário de entrada era às 6 horas: “Tínhamos tanto medo de adormecer…”[2]. Recorda também que não era permitido limpar os pés antes de sair da fábrica. Um dia esteve quase para ser castigada e “ia três dias para casa sem receber” porque um encarregado afirmava tê-la visto a “molhar o desperdício para limpar os pés”[3]. E acrescenta ainda: “A faltar meia hora [para sair] não se podia ir à casa de banho (…) nem que viéssemos a correr”.
Educados para obedecer, os operários acatavam estas normas de funcionamento e raramente as contestavam, especialmente porque os castigos implicavam sempre uma redução no salário. A rigidez quase militar que transparece destes testemunhos não se encontra, surpreendentemente, assim tão distante do regulamento interno da Fábrica do Rio Vizela[4], que remonta a 1847[5]. A apropriação deste documento[6] servia, oportunamente, a dramaturgia deste quadro cénico que apresenta, pela primeira vez no espetáculo, a figura do operário.
A escolha de uma personagem coral permitiu sublinhar o carácter anónimo e massificador da condição operária. Numa fábrica com mais de um milhar de operários é natural o indivíduo confundir-se com a multidão e passar a ser mais uma peça de uma grande engrenagem, treinado para responder a múltiplas exigências de produtividade através da submissão do corpo, das ações e das palavras. Como introduz o artigo 1º do regulamento interno acima referido “Os operários admitidos a trabalhar na Fábrica submetem-se às condições e obrigações” definidas por um Diretor que “vigia e pune” – aquilo que Foucault (1999)[7] denominou de “corpos dóceis”:
O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento das suas habilidades(…) mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil(…). Forma-se então, uma política das coerções que consiste num trabalho sobre o corpo, numa manipulação calculada dos seus elementos, dos seus gestos, dos seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe.(…) A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, os chamados “corpos dóceis”. (p. 119).
O três primeiros pontos do artigo 1º definem, de forma inequívoca e precisa, a regulamentação referente ao tempo: os operários “são obrigados a entrar e sair à hora determinada pelo Director, o que será anunciado a toque de campainha”. Trata-se de construir um tempo integralmente útil, sem desperdícios, de forma a que a cada ato, a cada gesto, corresponda um tempo determinado.
Este coro de operários instruído pela voz de uma espécie de “encarregado”, pontua com os pés, como se de uma marcha cadenciada se tratasse, o desfilar de obrigações a que, docilmente, se submete. Aqui a exploração sonora/musical apresenta-se como expressão privilegiada capaz de instrumentalizar estes corpos no tempo e no espaço. Corpos que ao toque de uma sirene, se deslocam em movimentos repetitivos e constantes numa gradual despersonalização que os transforma e integra numa máquina produtora[8].
[1] http://www.nafabrica.pt/tag/2-video/ (10 out|conversa – 00:07:34 – “tínhamos de andar direitinhos”).
[2] http://www.nafabrica.pt/tag/2-video/ (10 out|conversa- 00:33:17 – tínhamos tanto medo de adormecer”).
[3] http://www.nafabrica.pt/tag/2-video/ (10 out|conversa – 00:30:42 – “perder o prémio”).
[4] “O primeiro arranque da indústria no Vale do Ave remonta a 1845 com a instalação de uma fiação hidráulica, em Negrelos (Santo Tirso) – a Fábrica de Fiação do Rio Vizela” (Cortesão, 2102, p. 24)
[5] http://www.nafabrica.pt/tag/2-objetos/ (Edição Comemorativa dos 150 anos da Fábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela).
[6] http://www.nafabrica.pt/tag/2-textos/ (Texto de cena).
[7] Foucault, M. (1999). Vigiar e punir. Nascimento da prisão (20ª ed.). Petrópolis: Vozes.
[8] Ver também Quadro VI – Tear.






