QUADRO IV. ESCRITÓRIO

“Ó Joaquim, porta-te bem, que eu vou ver se te ponho no escritório”

O modo como ia acontecendo a aculturação ao funcionamento institucional da fábrica decorria segundo um processo gradual. Começava-se do simples para o complexo. Era quase uma continuação das formas de aprendizagem escolar. Pouco a pouco, o recém-chegado ia conhecendo as diferentes regras e tarefas a desempenhar. (Cortesão, 2012, p. 52)[1]

O Sr. Roriz foi outro dos ex-trabalhadores [assim como a Conceição Silva] convidados a integrar o espetáculo. Logo no primeiro encontro impressionou-me a forma como relatou a sua história na fábrica, selecionando datas precisas para acontecimentos marcantes:

“Fui admitido nesta fábrica a 1 de setembro de 1952 [tinha 13 anos]. Prestei serviço, como todos que aqui entraram naquela época, cá fora, junto dos trolhas, junto dos pedreiros, e todo o serviço que era necessário de dar assistência aos nossos superiores, que neste caso, eram os oficiais. Um ano e tal depois fui transferido para o armazém de expedição. Em 1959 fui transferido para o escritório geral, onde me mantive até ao encerramento da empresa, em outubro de 1990.”[2]

Uma cronologia que traça uma biografia breve, que descreve um percurso de conquistas e ascensões. A importância atribuída ao tempo faz sobressair a consciência de um gradual processo de aprendizagem, como se a vida e a fábrica se confundissem. “A escola da vida”, expressão a que vulgarmente se recorre para falar de todas as aprendizagens significativas na formação de um indivíduo, aqui deveria ser substituída por “A escola da fábrica”, onde se aprende a “saber fazer” e a “saber ser”. Uma espécie de ensino profissionalizante em contexto de trabalho. Isto obrigava a uma disciplina rigorosa e a um empenho e dedicação capazes de garantir a confiança das chefias – “Ó Joaquim, porta-te bem, que eu vou ver se te ponho no escritório”[3]. E o Joaquim assim fez, e foi admitido no escritório – “talvez por ter uma letra bonitinha”[4], que aprimorou, uns anos depois, com o curso de caligrafia comercial.

 

“O i minúsculo é feito unicamente por meio de um traço curvo ascendente e tem na parte superior uma pinta aguda. Conte 1, 2, 3, 4, 5 para cada grupo. Faça o traço descendente tão fino como o ascendente e procure que meça a mesma distância entre todos os traços. Faça cinco grupos por linha e cinquenta letras por minuto (…)”[5]

Recordo-me, em especial, da sessão de filmagens do vídeo de cena[6] [que dá início a este quadro], onde o Sr. Roriz faz alguns exercícios de caligrafia comercial. Foi bastante curioso observar como a sua postura e concentração sofreram uma transformação, verdadeiramente reveladora. A eloquência com que fala cada um dos gestos, adaptados à tarefa da escrita é a mais justa metáfora do seu percurso na fábrica. Uma caligrafia que escreve rigor, paciência, brio, orgulho, perseverança, eficiência…. Como defende Foucault (1999) em Vigiar e Punir “um corpo disciplinado é a base de um gesto eficiente”, e a aprendizagem de uma “boa caligrafia supõe uma ginástica (…) cujo código rigoroso abrange o corpo por inteiro, da ponta do pé à extremidade do indicador.” (p. 130)[7].

[1] Cortesão, L. (Coord.). (2012). Quando eu nasci, aquela fábrica já ali estava: Memórias, vivências e opiniões sobre o trabalho na indústria, em Guimarães. Guimarães: Fundação Cidade de Guimarães.

[2] http://www.nafabrica.pt/tag/4-video/ (10 out|conversa – 00:08:55 – “biografia do Sr. Roriz”).

[3] http://www.nafabrica.pt/tag/4-video/ (10 out|conversa – 00:39:42 – “ó Joaquim porta-te bem”).

[4] http://www.nafabrica.pt/tag/4-textos/ (Texto de cena).

[5] http://www.nafabrica.pt/tag/4-audio/ (Áudio de cena).

[6] Filmado e editado pelo realizador Pedro Bastos.

[7] Foucault, M. (1999). Vigiar e punir. Nascimento da prisão (20ª ed.). Petrópolis: Vozes.